Funk de BH agita o Brasil com beats envolventes e identidade das periferias

Artistas e DJs da capital mineira somam milhões de visualizações nas plataformas digitais e conquistam espaço na cena nacional com identidade própria

Funk de BH

MC Anjim, MC Mika e MC Zaquin: nomes de sucesso do funk de BH

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Foto: Montagem sobre fotos de MC Anjim (Bernardo Rodrgiues/Divulgação), MC Mika (@mika7lc/Reprodução ) e MC Zaquin (@mczaquin/Reprodução)

No início dos anos 70, o Clube da Esquina se revelou para o mundo no disco homônimo. Formado nas ruas de Santa Tereza, em Belo Horizonte, o movimento de Milton Nascimento, Lô Borges, Fernando Brant, Beto Guedes e outros talentosos músicos virou sinônimo da cultura mineira. Vinte anos depois, lá no comecinho da década de 90, a agitação do pop rock independente de BH catapultou às rádios nacionais as bandas Skank, Pato Fu, Jota Quest – que começou como J.Quest – e Virna Lisi, para ficarmos em alguns nomes daquela cena.

Agora, no florescer dos anos 2020, o funk de BH é o som que vem das favelas, dos becos e dos morros e chega, estrondoso, às plataformas digitais. Se em 70 foi o vinil, em 90, o CD e a MTV, agora o TikTok, o Spotify e o YouTube são os canais que popularizam a música dos artistas mineiros para além das fronteiras do Estado. É o funk que vai fazer MC Anjim, 21, sair do Brasil pela primeira vez.

No início de dezembro, ele desembarca em Portugal para uma série de shows em Lisboa. Talvez Anjim passe também pela Bélgica. “Sem palavras, não tenho nem como descrever minha emoção”, diz o artista, nascido e criado no Aglomerado da Serra. Anjim entrou na pista no final de 2015, mas foi em 2019, com “Postura de Bandido Mau”, que ele começou a despontar com letras debochadas e viajadas.

Lançada em junho em parceria com a dupla de DJs PH da Serra e LV do MDP, “Bala Love” é o grande hit de Anjim. O clipe tem quase 60 milhões de views no YouTube. No Spotify, foi o funk mais tocado do Brasil em outubro. O artista vê o TikTok como um dos grandes responsáveis pela ascensão da música, que, inclusive, menciona o aplicativo em um de seus versos. “O TikTok ajudou demais, né? Mas música boa não tem como, quando é para ser, estoura mesmo, entra no gosto popular. A coreografia faz parte, tem o visual, é uma arte completa”, pondera o cantor. 

MC Zaquin, 20, é outro artista que acumula números estratosféricos nas plataformas digitais. “Ô Moça”, “Não Nasceu Pra Namorar” – essa em parceria com MC Rick, um dos principais nomes do funk de BH – e “Eu Catuquei” já ultrapassaram 50 milhões de plays no TikTok, motivo suficiente para chamar a atenção da Universal. De contrato assinado com a multinacional, Zaquin agora quer gravar um DVD no Mineirão, “fazer uma coisa bacana por lá”.

Cria do bairro Venda Nova, ele busca referências no pagode, no sertanejo e no rap de Gabriel O Pensador. “O Que Tiver Que Ser, Será”, feat com Belo, foi lançada recentemente. “Já estava com vontade de fazer um pagode. Metade da letra é minha, metade é do Belo”, conta, orgulhoso. 

Em tempos em que o sucesso de uma música é medido pela quantidade de acessos nas plataformas digitais, é possível dizer, sem pensar meia vez, que o funk de BH invadiu o Brasil com dancinhas no TikTok e um estilo muito particular. Essencialmente produzido por uma turma de vinte e poucos anos, o funk belo-horizontino lança mão de um beat dançante, mais cadenciado, de gírias locais – “de rocha”, “pela ordi” e “só força” são algumas das expressões com o “carimbo BH” – e de temas comuns ao universo jovem. Sexo (em escalas mais ou menos escrachadas), desilusões e superações amorosas, ostentação, deboche e uma certa dose de imaturidade própria da idade dão o tom das letras.

O som tem elementos do trap, o subgênero do rap que também tomou o país, e o visual é carregado de cores, decotes, tatuagens, óculos espelhados e cordões de ouro. “O funk de BH chegou chegando”, anuncia Anjim. “Ele é bem visto em outros lugares do país. Temos uma pegada diferente, uma melodia que gruda”, completa. “O funk do Rio é acelerado, o de São Paulo é um pouco mais rasteiro, e o de BH tem o pique de BH”, afirma MC Zaquin. Mas que pique é esse?

Maranhense radicada em BH, MC Mika, 22, do single “Nem Casado, Nem Solteiro”, que bateu mais de 20 milhões de execuções nas plataformas digitais, chegou à capital aos 6 anos. “O funk de BH se tornou referência por causa do beat, que é mais envolvente, tem uma identidade própria, mistura instrumentos e ritmos. O funk do Rio é mais acelerado, 150 bpm (batidas por minuto), 160… Aqui varia de 90 a 130 bpm”, explica MC Mika.

A batida de BH vem das mãos dos DJs PH da Serra, LV do MDP, Kelvin Lopes e Cayoo, alguns dos produtores destaques da cena. Sons de games clássicos, como “Street Fighter” e “Mortal Kombat”, e de “Bob Esponja” também são usados nas músicas. “A mente do mineiro tem que ser estudada, tudo vira música”, diz Mika.

De família evangélica, ela cantou em coral e fez parte de grupo gospel. Hoje, fala sobre sexo nas músicas com naturalidade e carrega a bandeira do empoderamento feminino. “Eu bato de frente mesmo, tento passar a visão que a mulher pode ser quem ela quiser. Se o homem canta ostentação e putaria, eu trago o poder da mulher. Se o homem pode, a mulher também pode”, ela enfatiza.

Mercado aquecido

Mika faz parte da Tropa do 7LC, gravadora e produtora que gerencia a carreira de 26 MCs, entre eles MC Vh Diniz. Muitos deles gravam no estúdio da Tropa no bairro Boa Vista, na região Leste da capital. “Estamos erguendo os ‘moleque sonhador’ igual a gente, crias de periferia, que não têm oportunidade de estar em um estúdio com equipamento necessário para fazerem os trabalhos, evoluírem e se aperfeiçoarem no talento”, comenta Xapi, nome à frente da produtora, que abriu os trabalhos há dois anos. Nunca faltou vontade e criatividade, mas o mercado do funk em BH começou de forma, digamos, improvisada. De dois anos para cá, a história mudou e, hoje, o cenário é profissional e promissor. 

Produtoras como a Só Hits e a Funk Explode Records também entraram no jogo, e, se o assunto é criação audiovisual, o nome de Henrique Douglas dos Santos aparece com destaque. O canal Doug Filmes no YouTube tem 4,1 milhões de seguidores e 1,1 bilhão de visualizações. Já o Funk Explode soma 4,8 milhões de seguidores e 1,8 bilhão de views.  

Os números impressionam e dão a dimensão do tamanho do funk produzido em Belo Horizonte. MC Anjim garante que o movimento não será efêmero como um vídeo do TikTok e tem tudo para durar. “Tem que batalhar, incorporar novos elementos e vertentes. Estamos sempre inovando, tem que saber acompanhar a linha do tempo”, diz o funkeiro do “cabelo vermelho na régua”, dono da recém-lançada “Garrafa Colorida”, parceria com PH da Setta e TG da Inestan. “Pode anotar aí, esse vai ser meu próximo hit”, ele promete.

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